A Cartomante – Parte 1

Eram duas horas da tarde, Vlad seguia juntamente com seu velho conhecido, Arnaldo, um amigo dos tempos de faculdade, que atuava como repórter da rádio Sintonia de São Ângelo, os dois seguiam para a casa de uma cartomante, indicada a Arnaldo por um amigo, ele queria saber se seu casamento com Rita daria certo, ou se estava destinado ao fracasso.

— Essas coisas não existem Arnaldo, ninguém pode predizer o futuro, é tudo balela. Imagine, se alguém tivesse esse dom, a mega sena jamais acumularia. — Dizia Vlad, recriminando o amigo.

— Ora Vlad, já dizia Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia”, dizem que ela nunca errou uma previsão.


— Quem diz? — Quis saber o repórter.
— Todos! — Respondeu evasivamente Arnaldo.
— Todos quem?
— Ah Vlad, por favor, não venha questionar os poderes dos astros, somos todos membros de uma entidade maior chamada destino. Eu sei o que faço.
— Ahã, vamos ver pra onde esse “destino” nos leva. — Completou Vlad.


Minutos depois o Opala azul metálico de Vlad adentrava a uma pequena ruela, um tanto quanto rústica, com uma aparência um tanto quanto amedrontadora. Os dois saíram do veículo e entraram num prédio, já um tanto castigado pelo tempo, com janelas que o davam a aparência de um prédio do início do século XX. Subiram pelas escadas estreitas e avermelhadas, passando pelo corredor que emanava um fraco, mas persistente cheiro de mofo e cigarro. Defronte ao quarto 303, bateram à porta, e ouviram uma voz feminina dizer-lhes que podiam entrar.


Era um quarto iluminado a meia luz, com presença de panos, toalhas e cortinas avermelhadas, um antigo abajur aceso no canto da parede, sob um móvel repleto de gavetas. Uma mesa ficava ao centro, com uma toalha vermelha e outra preta, e sentada à mesa, uma bela mulher, com longos dedos e unhas pintadas de preto, sendo algumas com o esmalte um tanto quanto desgastado. Tinha os cabelos negros, olhos azuis e a pele morena, numa inigualável tonalidade latina, a boca embebecida num batom carmim e várias pulseiras e anéis dourados que valorizavam seu vestido verde escuro, esse sim, bem castigado pelo tempo, mas que realçava sua bela silhueta e suas curvas.


— Sinara? — perguntou Arnaldo.
— Sim. — respondeu num tom suave — mas não é bem essa a resposta que você procura, não é? Contudo, é necessário fazer a pergunta certa.
— Claro! Qual o valor? — Interrompeu Vlad, ironizando a cigana — Mas tem de nos dizer quais os números da loto.


— Não posso dar-lhes fama ou fortuna, apenas a verdade das questões que os assolam. Então, se estão interessados na verdade, sentem-se e me façam as perguntas que realmente desejam.
Arnaldo sentou-se à mesa, de frente para Sinara, enquanto Vlad encostava próximo à janela.
— Qual o seu nome? Quis saber a cigana, sem olhar nos olhos de seu cliente.
— Arnaldo. Quero saber se meu casamento dará certo.


— Questões do amor? Vamos usar um baralho diferente. — A cigana levantou-se, aproximou-se do armário com várias gavetas e de uma delas pegou um baralho envolto em um lenço. Voltou à mesa, embaralho e pediu para que Arnaldo partisse o baralho.


— Ai! — Disse Arnaldo ao se cortar com as cartas — Nossa, cartas afiadas, não? Pronto. — Terminou de separar o baralho em duas partes.


A cigana então começou a virar as cartas, e após virar a sexta, disse:
— Sua noiva será feliz, sim, muito feliz, mas não agora. Não, não. Não agora, há uma morte no caminho de vocês. — Disse a cigana num tom seco.


— Uma morte? — Assustou-se Arnaldo — Será o pai dela? Ele está muito doente, mas não creio...
— A sua morte. Você não se casará. — Interrompeu drasticamente Sinara — Seu destino está traçado senhor Arnaldo, e o que os astros dizem, os mortais acatam. — Eu, mas ontem mesmo eu fui ao médio, estou ótimo de saúde. Como vou morrer? — Desesperou-se Arnaldo.


Vlad, que escutava tudo, balançou a cabeça, afastou-se da parede e aproximou-se do amigo.
— Esqueça isso Arnaldo, vamos embora, essa mulher é uma aproveitadora, nada acontecerá com você, não perca mais tempo aqui. Eu disse que não valia à pena. — Dizia Vlad, levantando Arnaldo da cadeira e tirando uma nota de cinqüenta reais do bolso. — Acho que isso paga essa brincadeira sem graça.
— Não é brincadeira, é o que as cartas dizem. — Completou a cigana, guardando o dinheiro no decote. — Seu amigo morrerá, e não há nada que você possa fazer.


CONTINUA...


Perfil

Thiago Rossi
Graduado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, e pós-graduando em Gestão Cultural pelo Senac-BH. Atua como gerente de publicidade do Jornal Folha de Negócios, onde ingressou inicialmente na função de estagiário em 2006. Venceu 3 concursos de criação publicitária na Universidade Presidente Antônio Carlos, além de obter o 1º lugar no concurso de Poesia “Guimarães Rosa” em 2007, na UNIPAC. Aluno da oficina de Produção e Desenvolvimento Cultural da turma 2009 da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes, já publicou dois livretos com os “Contos de Vlad”, além de peças teatrais. É natural de Barbacena, Minas Gerais, nascido em 12 de fevereiro de 1985. Contato: thiagosrossi1985@hotmail.com